Embora a comunicação oral seja um dos primeiros cartões de visita de qualquer pessoa e em qualquer situação social, ainda há aqueles que, por vício, demonstram falta de atenção ou até mesmo comodismo, e usam, para falar, muletas, bordões e o famoso gerundismo, sem perceber que esse uso só os prejudica.
Segundo o dicionário on-line Houaiss, a palavra “muleta” significa “bastão comprido, com encosto na parte superior adaptado à axila, no qual se apóia aquele que tem dificuldade de caminhar”, portanto, algo necessário para manter-se erguido, usado por pessoas com dificuldade para caminhar. Adaptando à linguagem, algo necessário para manter ou enfeitar uma conversa, usado por pessoas com ou sem dificuldades para se comunicar. Já a palavra “bordão”, ainda conforme o mesmo dicionário, é uma “expressão ou frase que um indivíduo repete viciosamente ao falar ou escrever”. Além de muletas e bordões, ainda há o emprego do gerundismo, uso errôneo e vicioso do gerúndio.
As muletas podem realmente derrubar a primeira impressão que se deseja causar. O uso de expressões como “no sentido de”, “a nível de” e “tipo” podem destruir uma imagem. Não faz sentido – e não é elegante ou requintado – o emprego de “no sentido de”, como em “fizemos determinado ajuste no sentido de melhorar o produto”, quando se pode usar simplesmente a preposição “para”, que é muito clara, simples e eficiente.
Além de errado, também é prejudicial para a boa impressão o emprego de “a nível de”, como em “a nível de dinheiro, estou muito bem”, quando se pode simplesmente dizer “estou muito bem porque tenho dinheiro”; importante ainda ressaltar que essa locução é refutada pela maioria dos gramáticos, mas só está correta quando utilizada com dois sentidos: “à mesma altura” (Ontem, São Paulo amanheceu ao nível do mar) e “de âmbito” (A mudança será realizada em nível nacional).
Já o emprego de “tipo” é algo que precisa ser evitado a todo custo, porque em nenhum momento, nos casos de vício e muleta, a pessoa está representando o tipo de alguma coisa, e quando o está, poderia diversificar a linguagem e usar sinônimos.
Livrar-se não só desses supostos amparos da fala, mas também de outros é o caminho para não prejudicar a comunicação. Os bordões, por exemplo, são uma linguagem tão específica e coloquial, que seu uso em situações formais pode ser um desastre homérico. Esse é um dos motivos pelo qual os bordões como “é a treva”, “não é brinquedo”, “é mara”, e muitos outros, devem ser empregados em situações extremamente íntimas, com família, amigos etc.
O gerundismo, uso errôneo e vicioso do gerúndio (forma nominal do verbo terminada em NDO), é outro boomerang que com certeza volta, mas contra o usuário. Em vez de usar muitos verbos em uma mesma frase, como “vou estar transferindo sua ligação”, é muito mais fácil e, com certeza, menos danoso usar menos verbos, como “vou transferir sua ligação”, “vou atendê-lo neste momento” etc. A utilização correta do gerúndio para expressar uma ação com duração no futuro ocorre, mas essa ação realmente deve estar no futuro. Por exemplo, está corretíssimo dizer “Não me ligue amanhã às 14h porque vou estar almoçando”, pois a ação terá uma duração de tempo no futuro e não é algo que você simplesmente pode executar no momento da fala, como em “vou transferir”, “vou almoçar”.
Para um cartão de visita causar boa impressão em situações sociais diversas, ele precisa se apresentar bem. Na comunicação oral, apresentar-se bem é falar clara e precisamente, sem muletas que podem nos derrubar a qualquer momento.